06/04/2008

Não perceber o óbvio

PUBLICO - Ministra da Saúde “sem medo dos protestos” e preocupada com fuga para o privado


-De que forma espera o governo travar a fuga de médicos para o sector privado? Com os vencimentos da função pública a perderem anualmente poder de compra, face ao sector privado, muito por culpa duma reforma adiada por falta de coragem política, que vai provocar a impossibilidade de premiar os melhores, os mais competentes, estes sentem-se muito natural e justamente seduzidos, por ofertas mais atractivas do ponto de vista salarial, mesmo as regalias que o estado proporcionava á classe médica, têm vindo a ser sistematicamente reduzidas, ficando no sector público os iniciantes na carreira, em aprendizagem para passarem mais tarde ao sector privado. Atrás dos médicos irão os melhores enfermeiros, e ninguém poderá ficar admirado, se daqui por uns anos, Portugal tiver um SNS com qualidade terceiro-mundista, caro ainda por cima, e nem sequer universal e tendencialmente gratuito como se propõe. A falta de coragem política para efectuar verdadeiras reformas, em lugar de apregoá-las mantendo basicamente tudo na mesma, a persistência num modelo que se tem revelado ineficiente e insustentável, provocarão mesmo, uma saúde privada com qualidade, e um SNS de serviços com qualidade duvidosa a médio prazo, por enquanto tem-se mantido eficiente, muito por mérito dos seus profissionais, mais do que por consequência duma política sectorial nesse sentido. O princípio tem de ser o mesmo em toda a sociedade, a produtividade deve ser paga, o mérito reconhecido, tudo igual para todos, já se revelou uma utopia, geradora do nivelamento por baixo em qualquer sector de actividade, os médicos não são excepção, os bons, os melhores, querem mais, para os menos bons ou mediocres, basta assim. Deixem-se de preconceitos ideológicos, e percebam o mundo em que vivemos!

3 comentários:

Filipe Tourais disse...

Pois. Mas os médicos são formados com dinheiros públicos e a sua formação é cara. Na sua óptica liberal haveria que fixar-lhes um período no qual não pudessem exercer medicina na privada. Aliás, como se faz na força aérea.
Quanto a um serviço público de qualidade, ele nunca será conseguido nem com filas de espera, nem com o sistema dual que delas resulta: um serviço privado para ricos e outro para pobres. Não queiramos entrar no esquema americano que, isso sim, é não ver o óbvio. O sistema tem que ser universal.

António de Almeida disse...

-As nossas opiniões não são muito divergentes Filipe, já tenho questionado a lógica do ensino superior ser financiado por dinheiros públicos, quando manifestamente proporciona benefícios privados, essa promiscuidade é que fica em causa, ao não existir coragem política, para se separarem as águas. quanto ao sistema americano, ele tem aspectos positivos, e outros altamente negativos, que alguns candidatos se propõem alterar, como o Filipe bem sabe.

Tiago R. Cardoso disse...

Defendo o sistema misto, onde quem tem possibilidades pode sair do sistema, dirigindo os recursos para quem não pode sair dele.